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Flávio Bolsonaro e a fuga para os braços de Trump

Dois dias depois de perder a eleição presidencial, Flávio Bolsonaro embarcou com a família para os Estados Unidos. Segundo a CNN Brasil, o governo dos EUA afirmou que Donald Trump autorizou a entrada do senador e que um visto será concedido.

O destino não surpreende. A ligação de Flávio com Trump é antiga e foi exibida durante toda a campanha. Em março, na conferência conservadora CPAC, ele disse que o Brasil era “a solução” para os americanos reduzirem a dependência da China em terras raras. Surpreende o momento, logo depois da derrota, quando o senador responde a inquéritos no Brasil.

Flávio é investigado no STF, junto com o empresário Willer Tomaz, por lavagem de dinheiro e evasão de divisas. Na véspera do desembarque, o ministro Alexandre de Moraes mandou que ele entregasse o passaporte em 24 horas e cancelou o documento. Há ainda o caso “Dark Horse”, em que, segundo áudios divulgados, Flávio pediu dinheiro ao banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, para financiar um filme sobre o pai.

O investigado não é condenado, e Flávio tem direito à ampla defesa. Mas a defesa se exerce nos autos, diante do juiz, e não do exterior. Até a publicação deste texto, seus advogados não haviam explicado as circunstâncias da viagem e nem informado se há previsão de volta.

Politicamente, a direita saiu fortalecida das eleições de 2026. Segundo o TSE, Flávio teve mais de 59 milhões de votos no segundo turno. Flávio teve a eleição de um irmão deputado federal, outro irmão e uma madrasta senadores, e o PL fez a maior bancada na Câmara e no Senado, além de seis governadores. Quem dispõe desse capital tem pouco motivo político para abandonar o jogo. Por outro lado, a força eleitoral não protege ninguém de investigação, mas também não explica uma saída do país. Tudo indica que a viagem teve o objetivo de evitar a Justiça brasileira.

Flávio disputou a Presidência pedindo ao eleitor o direito de governar o país inteiro, inclusive nos momentos difíceis. Quem deixa o país quando a Justiça cobra explicações desmente esse pedido. O senador tem mandato até o início de 2027, foro no STF e tem advogados para se defender. Mesmo assim, escolheu o aeroporto.

A atitude revela ainda um projeto. Flávio fez do alinhamento com Washington a marca de sua campanha, e o governo que agora o acolhe é o das tarifas que ameaçaram a economia brasileira.

Em 2018, Lula foi condenado em segunda instância, teve a prisão decretada e não fugiu para o exterior. Entregou-se à Polícia Federal, cumpriu 580 dias de prisão e saiu em 2019. Em 2021, o STF anulou suas condenações. Pode-se discordar de Lula em tudo, mas ele enfrentou o processo dentro do Brasil. Anos depois, essa recusa em fugir se tornou parte da história que o levou de volta ao Planalto e à reeleição.

A comparação tem limites, pois Lula estava condenado e Flávio é apenas investigado. O contraste está na escolha de cada um diante da Justiça. Um ficou. O outro foi embora. De todo modo, cumpriu-se o lema que a direita tanto repetiu: “Brasil, ame-o ou deixe-o”.

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