Em mais uma rodada de pressões americanas contra rivais declarados, o Brasil recebeu notícias de duas possíveis sobretaxas que ameaçam tirar a competitividade dos produtos brasileiros no maior mercado consumidor do mundo.
As medidas chegam no mesmo momento da classificação, por Washington, do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas. A investigação da Seção 301, conduzida pelo Escritório do Representante Comercial dos EUA (USTR), é o instrumento formal da penalidade por práticas comerciais desleais. A segunda sobretaxa, entre 10% e 12,5%, ancora-se em alegadas omissões brasileiras no combate ao trabalho forçado.
Os números revelam a crescente perda de relevância americana na balança comercial brasileira. Em 2009, o comércio com os EUA respondia por 25% das transações externas do país, mas atualmente encolheu para 9,7%. No mesmo período, o intercâmbio com a China quadruplicou, tornando Pequim o principal parceiro comercial brasileiro. Washington negligenciou a relação e agora tenta recuperar o tempo perdido.
A ironia é evidente, pois a cada rodada de pressão tarifária ou retórica hostil empurra o Brasil ainda mais para a órbita de influência chinesa. O secretário de Estado americano Marco Rubio excluiu o Brasil da lista de países amigos na América Latina, sinalização que contrasta com a presença massiva de corporações norte-americanas em setores estratégicos brasileiros, que remetem anualmente bilhões em lucros às suas matrizes. Essa assimetria expõe a contradição central de Washington de cobrar lealdade política, esquecer dos dividendos econômicos recebidos, mas mostra ter apetite imenso para tirar mais vantagem da relação com o Brasil.
A tensão bilateral advém de diversas razões, como a aproximação brasileira com Pequim, as divergências sobre Venezuela e Cuba, a classificação das facções criminosas e, agora, as sobretaxas.
O Brasil ameaça acionar a Lei de Reciprocidade, aprovada em 2025 após o primeiro tarifaço de Trump. O governo americano, por sua vez, sinalizou estar disposto a negociar.
Nenhum dos lados tem interesse real em guerra tarifária ou distanciamento diplomático duradouro. O Brasil historicamente defendeu seus interesses com pragmatismo, preservando soberania sem romper pontes. Os EUA, por sua vez, jamais subordinaram sua política externa a princípios e sempre priorizaram interesses econômicos e geopolíticos, indiferentes ao regime do interlocutor ser democracia ou ditadura.
A ofensiva de Trump chega com o apoio velado de atores domésticos interessados em desestabilizar o governo e fragilizar o país internacionalmente. A ruptura, porém, seria um mau negócio para todos. O verdadeiro risco não está nas tarifas em si, mas na incapacidade de distinguir pressão negocial de antagonismo gratuito, equívoco que, na geopolítica, tende a ser explorado por terceiros com maior apetite estratégico.
