No Brasil o escândalo de hoje é a cortina de fumaça do escândalo de ontem.
Em uma década tivemos diversas crises. O país esquece não porque perdoa, mas porque simplesmente não tem tempo de lembrar ou é manipulado para não lembrar.
Em 2021, a CPI da Covid revelou que o governo Bolsonaro havia atrasado a compra de vacinas para favorecer transações intermediadas por empresas privadas. O caso mais emblemático foi o da vacina indiana Covaxin, adquirida por valor mil por cento acima do preço ofertado pela mesma fabricante seis meses antes. Também em 2021, o chamado “orçamento secreto” revelou como bilhões de emendas parlamentares eram distribuídos sem qualquer transparência.
Em 2022, dois pastores sem cargo oficial controlavam a agenda do ministro da Educação e direcionavam verbas federais a aliados.
Em janeiro de 2023 apoiadores de Bolsonaro depredaram o Palácio do Planalto, o Congresso Nacional e o STF.
No governo Lula, de 2023 a 2026, o ministro dos Direitos Humanos, Silvio Almeida, caiu após denúncias de assédio sexual. O ministro das Comunicações, Juscelino Filho, foi indiciado por corrupção passiva, lavagem de dinheiro e organização criminosa.
Em 2025, veio a fraude no INSS envolvendo R$6,3 bilhões em descontos indevidos de aposentadorias e pensões.
No ano de 2025 irrompeu o escândalo financeiro do Banco Master, com suspeitas de rombo de até R$50 bilhões. Investigações mostraram pagamentos a pessoas influentes no meio político e jurídico.
O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência, foi atingido pelo vazamento de áudios pedindo repasses a Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, tendo sido confirmada a transferência de pelo menos R$61 milhões para viabilizar um filme em homenagem ao seu pai. O senador Flávio Bolsonaro visitou o banqueiro durante a sua prisão domiciliar, em novembro de 2025, período em que o STF havia decretado sua detenção na primeira fase da Operação Compliance Zero.
É nesse ponto que entra novamente a mecânica fabricada da cortina de fumaça e ela merece ser examinada.
O senador Flávio Bolsonaro concentrou na mesma semana dois movimentos na retomada da pré-campanha após o vazamento do áudio enviado ao banqueiro Daniel Vorcaro. O principal deles foi uma viagem para audiência com o presidente Trump, onde pediu que as facções criminosas PCC e Comando Vermelho fossem classificadas como organizações terroristas.
A pauta do terrorismo das facções brasileiras não é nova, pois tramita em esferas diplomáticas há meses. Entretanto, ao adotar uma atitude unicamente pessoal e antipatriótica, Flávio produziu uma imagem para deslocar o noticiário para os efeitos da medida e gerar o esquecimento da história do áudio, da visita ao banqueiro preso e do dinheiro do Master. É a arte da cortina de fumaça elevada à sua expressão mais acabada, que é não negar o escândalo, não se explicar, mas gerar um evento maior, mais fotogênico e capaz de mobilizar suas bases eleitorais.
