No dia 20.07, Andy Burnham tomou posse como primeiro-ministro do Reino Unido e apresentou proposta defendendo a necessidade de o poder público retomar o controle sobre serviços essenciais, como água, redes de distribuição de energia e transporte.
O discurso está politicamente correto e é baseado nas dificuldades reais vividas pela população de aumento de custo de vida, inclusive dos serviços públicos, mas o erário público terá de indenizar as companhias que assumiram esses serviços.
Tudo isso ocorre no país símbolo das políticas liberais e da onda de privatização de serviços públicos ocorrida na década de 1980, no governo de Margaret Thatcher, que vendeu a ideia de que essa seria a saída para a eficiência e a redução do Estado, modelo depois sistematizado no Consenso de Washington de 1989.
O Consenso de Washington consolidou um pacote de medidas que vai da reforma fiscal com redução de impostos à abertura comercial, passando pela privatização com menor intervenção estatal e pelo corte de gastos públicos, espalhando-se como modelo de política econômica neoliberal.
Esse modelo está sujeito a crises que forçam correções de rota, e agora, quatro décadas depois de Thatcher, o próprio país de origem do movimento privatista decide reverter algumas privatizações.
O Brasil vive, à sua maneira, uma versão paralela dessa disputa. O país privatizou a Vale do Rio Doce, a Telebrás, mais recentemente a Eletrobras e a BR Distribuidora, além da Sabesp e da Copasa.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem repetido, em falas recentes, que a venda de estatais reflete mais incompetência de gestão do que estratégia econômica, questionando publicamente os ganhos retornados para a população com a privatização da BR Distribuidora e Eletrobras.
O debate brasileiro e o britânico compartilham a mesma pergunta: setores como água, energia e transporte devem ser tratados como mercadorias sujeitas à lógica do lucro, ou como direitos cuja gestão cabe, antes de tudo, ao Estado?
Não há consenso técnico fechado sobre qual modelo entrega melhores resultados de forma consistente. Defensores da privatização apontam ganhos de eficiência, redução da folga orçamentária do Estado e atração de investimento privado sem endividamento público. Críticos apontam tarifas crescentes, prioridade na geração de dividendos para acionistas e falta de investimento em infraestrutura de longo prazo como efeitos recorrentes da privatização de monopólios naturais.
A ascensão de Andy Burnham trouxe essa discussão para o centro do debate político. Isso deveria abalar a atitude brasileira de copiar soluções econômicas e políticas de outros países para lidar com problemas nacionais, sem fazer as devidas adaptações. Copiamos o modelo britânico de privatizações? Sim. Devemos rever esse modelo? É lógico que devemos, até para acabar com a recorrência, no Brasil, de serviços públicos de baixa qualidade entregues por empresas privadas que assumiram serviços outrora executados por órgãos públicos.
