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Quando o rio cobra seu espaço

O rio, em seu estado natural, não conhece linhas retas nem limites rígidos. Avança lentamente por planícies abertas nos períodos de seca, serpenteia entre areias e cascalhos, contorna encostas suaves e ocupa apenas uma fração do território que, por direito natural e histórico, sempre lhe pertenceu. Periodicamente expande-se e recolhe-se conforme o ritmo das estações.

Foi justamente essa aparência de mansidão que enganou a civilização. Nos meses de estiagem, quando o rio se reduz a um fio d’água e deixa à mostra vastas áreas de solo seco, o homem enxergou ali uma oportunidade. Onde antes havia leito maior, planícies de inundação e campos naturais de absorção, surgiram ruas, loteamentos, galpões e bairros inteiros.

Mas o rio nunca deixou de ser rio e, nas chuvas torrenciais e periódicas, ele reage. O volume se multiplica e a água busca exatamente aquilo que lhe foi retirado. Ao tentar retomar suas planícies naturais, o rio encontra concreto, asfalto e casas. O resultado se repete com pontes caindo, vias arrancadas, sistemas de drenagem colapsados, residências destruídas ou inundadas, pertences levados pela correnteza e, em muitos casos, vidas humanas perdidas.

O que antes eram longos areiões e solos fertilizados naturalmente pelas cheias transformaram-se em zonas permanentes de risco. A tragédia, tratada com frequência como um evento excepcional, é a consequência direta da decisão de ocupar o espaço do rio e ignorar sua lógica milenar. Não se trata de um desastre natural, mas de um desastre urbanístico.

A cada enchente, repete-se o mesmo roteiro. Autoridades falam em “chuvas acima da média”, moradores são surpreendidos “pela força da água”, decretam-se estados de emergência. Pouco se menciona, porém, que o rio apenas cumpriu seu papel. Quem falhou foi a cidade, ao crescer ignorando os eventos naturais.

A solução estrutural para esse conflito esbarra em um obstáculo quase intransponível: o próprio modelo de ocupação urbana já consolidado. Devolver à natureza aquilo que dela foi tomado implica liberar planícies de inundação, remover edificações de áreas sabidamente vulneráveis, reassentar populações inteiras e rever décadas de planejamento urbano equivocado. É uma solução tecnicamente correta, ambientalmente necessária e politicamente difícil.

Enquanto essa reconciliação não ocorre, aposta-se em paliativos, com obras caríssimas, canais de concreto, diques, piscinões e contenções com promessas de controle e segurança. Mitigam, de fato, os efeitos imediatos, mas apenas por tempo limitado, pois o rio sempre cobra aquilo que lhe foi negado.

O tempo passa, a cidade cresce em altura e densidade, mas o rio segue seu curso, indiferente a discursos, projetos e inaugurações. Ele não reivindica por palavras, mas por força. E, a cada cheia, lembra que o espaço que percorre nunca deixou de ser seu, apenas foi ocupado por quem acreditou, equivocadamente, que a natureza poderia ser permanentemente contida.

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