Os golpes de Estado têm início, meio e fim, mas o seu fim é interminável na memória dos perseguidos.
No Brasil, foi assim nas décadas de 1930 e de 1960, quando grupos submeteram a população aos seus desmandos.
É preciso lembrar a capacidade de barbárie dos golpistas, o enorme poder que detêm para sufocar opositores e minorias e para silenciar as vozes dissidentes na imprensa e nos movimentos sociais.
Getúlio Vargas chegou ao poder com a Revolução de 1930, que depôs o presidente Washington Luís e impediu a posse de Júlio Prestes. Governou de forma provisória e, depois, constitucional, até que, em 1937 anunciou o Estado Novo. Alegou a existência de uma ameaça comunista, apoiada no documento forjado chamado Plano Cohen, fechou o Congresso Nacional, revogou a Constituição de 1934 e outorgou uma nova Constituição, chamada Polaca, por ter inspiração na Constituição autoritária da Polônia.
Durante o Estado Novo, os partidos políticos foram extintos, a imprensa passou a ser controlada e a censura tornou-se prática cotidiana. Opositores foram presos, torturados e exilados. Figuras como Olga Benário, uma judia entregue à Alemanha nazista para ser executada, e o escritor Graciliano Ramos, preso sem acusação formal, simbolizam a violência de um regime que se apresentava como defensor da ordem e da nação. O período terminou em 1945, quando os militares depuseram Vargas.
Em 31 de março de 1964, militares depuseram o presidente João Goulart, sob o argumento da necessidade de combater a corrupção e o comunismo. O que se anunciava como uma intervenção breve estendeu-se por 21 anos. O Ato Institucional nº 5, de dezembro de 1968, suspendeu garantias constitucionais, fechou o Congresso, permitiu a cassação de mandatos e institucionalizou a censura.
O saldo da repressão foi de milhares de presos políticos, torturados, exilados e centenas de mortos e desaparecidos, conforme apurou a Comissão Nacional da Verdade, em 2014. Artistas, jornalistas, estudantes, sindicalistas, camponeses e povos indígenas foram alvos de perseguição. Muitas famílias ainda hoje buscam notícias de seus desaparecidos, o que mostra que o fim de um golpe nunca é completo, pois suas marcas atravessam gerações.
Os ataques às sedes dos Três Poderes, em Brasília, no dia 08.01.2023 foram o desfecho de uma escalada de ataques sem provas ao sistema eleitoral e de estímulo à desconfiança nas instituições. Diferentemente dos episódios anteriores, desta vez as instituições resistiram e os responsáveis foram identificados, processados e julgados pelo Supremo Tribunal Federal (STF).
Lembrar não é revanchismo, é uma forma de não cometermos o mesmo erro dos nossos antepassados. Os golpes começam com a desqualificação das instituições, negação dos resultados eleitorais e a naturalização da violência política, e terminam na supressão das liberdades. Preservar a memória das vítimas e fortalecer a democracia é o único modo de impedir que a história se repita.
