Quando o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do Banco Master em novembro de 2025, ninguém antecipava a extensão das consequências políticas.
O banco do empresário Daniel Vorcaro havia tecido uma vasta rede de relacionamentos que alcançava do STF ao Planalto, do espectro conservador ao progressista. Paradoxalmente, a oposição bolsonarista converteu o episódio em munição eleitoral contra o governo Lula e parlamentares do PL abraçaram a tese de responsabilizar a administração petista pelo colapso, sob o argumento de que aliados do presidente teriam se beneficiado de contratos milionários com Vorcaro.
O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato ao Palácio do Planalto, engajou-se ativamente no tema. Em 11 de março, pregou que “todo mundo tem que ser investigado“. Em 22 de março, declarou que “vincular o caso Master à direita é narrativa falsa… Não pode nos atingir porque você não pode perpetuar essa mentira que Lula insiste em criar.” Em 8 de maio, foi às redes associar o escândalo ao PT e exigir a abertura de uma CPI. No dia seguinte, num evento partidário em Santa Catarina, desfilou com uma camiseta que proclamava: “O Pix é do Bolsonaro, o Master é do Lula.”
O cenário desabou em 13 de maio, quando jornalistas questionaram o senador sobre uma suposta ligação com Vorcaro no financiamento de um longa-metragem sobre seu pai. Flávio descartou as informações e as classificou como “mentira“. Horas depois, o The Intercept publicou áudios enviados pelo próprio senador ao banqueiro, negociando o repasse de 24 milhões de dólares para a produção. Em uma das gravações, Flávio expunha seu desconforto: “Apesar de você ter dado a liberdade, Daniel, de a gente te cobrar, eu fico sem graça de ficar te cobrando, tá?” Em outra, escreveu ao financista: “Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente. Só preciso que me dê uma luz!”
Diante da evidência irrefutável, o senador confirmou o pedido e tentou atenuar o dano: “Mais do que nunca é fundamental a instalação da CPI do Banco Master. É preciso separar os inocentes dos bandidos. No nosso caso, o que aconteceu foi um filho procurando patrocínio privado para um filme privado sobre a história do próprio pai. Zero de dinheiro público.”
O impacto nas pesquisas foi imediato.
O desfecho mais revelador do caso não está nos áudios, mas no que eles expõem sobre a arquitetura das relações políticas brasileiras. Flávio Bolsonaro, que por meses mobilizou camisetas e publicações para fixar o Banco Master como problema exclusivo do petismo, cultivava simultaneamente um vínculo de “irmandade” e financeiro com o banqueiro preso e investigado por fraudes bilionárias.
A frase estampada no tecido “O Pix é do Bolsonaro, o Master é do Lula” converteu-se, sem querer, na marca do fim da estratégia e retórica concebida para imputar falsamente a adversários culpa única pelo escândalo do Banco Master.
