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Nem todos morrem

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Há mortes que são, antes de tudo, um descanso. É sobre uma delas que este texto fala.

Ela se foi numa manhã como outra qualquer, sem alarde, sem manchete, sem nome que coubesse numa primeira página. Mas quem a conheceu sabe que a sua partida não foi só perda. Foi, também, um alívio. Foi, também, o início de um descanso.

Porque nem todos morrem. Algumas pessoas apenas deixam de sofrer.

Ela não chora mais. Não sente mais os xingamentos da vida ou das próprias pessoas. Ninguém mais lhe manda calar a boca. Ninguém mais a trata como se sua opinião não valesse ou não merecesse ser ouvida. Se hoje ela é um anjo, talvez seja porque só um anjo pudesse estar livre de tanto sofrimento.

Ela não sente mais dor nas pernas, que a incomodaram por anos, até o último momento de consciência. Não sente mais dores nos joelhos, nem aquela dor no pescoço que a acompanhava havia tempo demais e que nenhum remédio resolvia de vez.

Não precisa mais tomar remédio nenhum. Não precisa mais marcar consulta, esperar o resultado de exames, ouvir diagnósticos e receber prescrição de remédios. Não precisa mais agradar ninguém, nem o filho impaciente, nem a nora difícil de contentar, nem o vizinho que reclamava de tudo.

Não precisa mais se preocupar com os filhos, que já são adultos e seguem suas vidas. Não precisa mais chorar a ausência da irmã que partiu antes dela, porque agora, talvez, estejam juntas outra vez.

Não arrasta mais os pés pela casa. Não caminha mais devagar, com medo de cair, com vergonha de pedir ajuda. Não ouve mais desaforo de quem nunca teve paciência para tratar um idoso com o respeito que merece.

Ela teve uma vida difícil. Isso ninguém nega. Foram dias de trabalho duro desde a infância, de corpo cansado, de coração que seguia mesmo quando doía. Foram anos de doenças enfrentadas em silêncio, de cuidados diários com a casa e com a própria saúde, de preocupações que não davam trégua. Foram anos em que ser mulher, ser mãe, ser avó, significava também ser a última a descansar, e, ainda assim, incansável, ela seguia em frente.

Hoje, ela descansa.

Não é conformismo dizer que a morte, para quem sofreu tanto, pode chegar como alívio. É apenas reconhecer que existe um tipo de dor que só termina quando a vida termina, e que, para quem fica, resta a tarefa de lembrar não só da partida, mas de tudo o que essa pessoa aguentou até chegar até aqui.

A quem a feriu, ela já não deve nada. Se houve mágoas, ficaram para trás; não a acompanharam no descanso que agora vive.

Nem todos morrem e ela não morreu em nossos corações. Hoje ela não é apenas mãe, avó, irmã, cidadã. Hoje ela é um anjo, no céu, a nos esperar.

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