Lula fez algo inédito desde a redemocratização: terminou o primeiro turno atrás do rival e ganhou o segundo.
Segundo o TSE, Lula foi reeleito com 64.256.232 votos (51,79% dos válidos), contra 59.826.041 (48,21%) de Flávio. A vantagem final ficou em cerca de 4,4 milhões de votos.
A apuração teve suspense, com alternância na liderança. A vitória somente se consolidou depois das 20 horas.
Apoiadores de Lula saíram às ruas para celebrar a reeleição. O ponto alto foi a Avenida Paulista, em São Paulo, onde uma multidão esperava o presidente, que falou com um megafone pelo teto solar do carro. O próprio Lula demonstrou surpresa. Disse que o que viu na Paulista, pela quantidade de gente e pelo entusiasmo, era algo em que não acreditava.
No discurso, ele atribuiu a vitória a “a juventude rebelde” que se levantou pela democracia e às mulheres que se rebelaram contra o feminicídio. Agradeceu também à mobilização da juventude e aos votos de mulheres e de idosos. Nas comemorações havia gente de todas as classes sociais, brancos e pretos, homens e mulheres. O Brasil que reelegeu Lula é plural, e foi essa pluralidade que lhe deu a vitória.
A campanha de Flávio começou bem. Ele evitou os temas que afundaram seu pai em 2022, como as urnas, a vacina e as armas, e foi muito além do esperado no primeiro turno. O problema veio depois. A equipe passou a agir como se a eleição já estivesse decidida e chegou a falar de como seria a passagem da faixa presidencial.
No debate, Flávio escolheu o ataque constante, que afastou os indecisos e só agradou aos seus seguidores. Para completar, a pauta de governo vacilou entre a promessa de corte de gastos e a defesa da manutenção de todos os programas sociais. O eleitor ficou sem saber o que esperar dele.
Lula, ao contrário, passou a campanha tratando o segundo turno como uma disputa em aberto. No dia do resultado do primeiro turno, ele chamou a nova fase da campanha de “hora da prova dos nove” e reconheceu que o resultado foi inesperado. Reconhecer que perdeu a primeira rodada, ouvir o recado das urnas e voltar às ruas foi o contrário da soberba do adversário. Por isso falo em vitória da humildade. Lula atribuiu o resultado a uma derrota do “negacionismo e da mentira”.
Depois do resultado, Flávio repetiu um gesto conhecido de seu pai. Disse que é “impossível” reconhecer a derrota e que tentará anular a eleição, sob argumento da prorrogação da votação até as 19h. Entretanto, o pedido de prorrogação veio da campanha de Lula e de Flávio. Ele pediria anulação porque a votação foi estendida, e teria pedido anulação do mesmo jeito se o seu próprio pedido tivesse sido negado. É a postura de quem só aceita o resultado quando vence.
Lula venceu em um país dividido, com um Congresso dominado pela direita. Governar para todos, como o presidente prometeu, será mais difícil do que ganhar a eleição. A humildade que o levou à vitória terá de acompanhá-lo no mandato.
