Dizem que somos racionais, mas basta observar um noticiário ou uma eleição para constatarmos ser a irracionalidade, muitas vezes, a regra. Dizem que somos humanos, mas com frequência agimos sem a menor humanidade. Dizem que somos criativos e construtivos, mas destruímos recursos, ecossistemas e vidas e chamamos isso de progresso.
Então, afinal, o que somos?
A resposta mais honesta é que somos a tese e o seu contrário, ao mesmo tempo. Somos o homem que chora diante de um filme e ignora o mendigo na esquina. Somos a mulher que defende os animais nas redes sociais e humilha a funcionária doméstica em casa. Somos o político que discursa sobre ética e assina o contrato superfaturado. Somos o pai amoroso que, no calor de uma discussão, diz palavras que nunca deveriam sair de uma boca amorosa.
Essas contradições não são defeitos do ser humano e sim a sua marca.
Somos seres multifacetados, com camadas sobrepostas de razão e instinto, de generosidade e egoísmo, de fé e ceticismo, de coragem e covardia. Somos complexos e é exatamente essa complexidade que nos torna interessantes, imprevisíveis e, no fundo, fascinantes. Se fôssemos inteiramente racionais, viveríamos como algoritmos, tomando sempre a decisão ótima, prevista, calculada. Seriamos eficientes e profundamente entediantes, previsíveis.
Não somos iguais, e isso, que poderia ser fonte de conflito infinito, é também a fonte de tudo o que nos encanta uns nos outros. É a diferença que gera o diálogo, a troca, o amor, a arte, a filosofia. Se todos pensassem da mesma forma, vissem o mundo com os mesmos olhos e reagissem aos mesmos estímulos da mesma maneira, não haveria literatura, não haveria música, não haveria política, não haveria história. Haveria apenas repetição, uma monotonia perfeita e insuportável.
É a nossa incompletude que nos move. É o que não entendemos que nos faz pesquisar. É o que nos falta que nos faz buscar. É o erro que nos faz, às vezes, crescer.
Nenhum algoritmo, por mais sofisticado que seja, conseguirá capturar isso, não consegue reproduzir a contradição do soldado que chora sobre o inimigo que acabou de matar, não consegue entender por que uma pessoa perdoa o imperdoável, não consegue entender por que outra pessoa guarda rancor de uma ofensa de trinta anos atrás, trivial aos olhos de todos, mas enorme dentro dela.
É essa incerteza que fascina. É essa imprevisibilidade que torna cada encontro humano uma aventura. Em um momento podemos nos atacar e no momento seguinte podemos nos perdoar, nos abraçar, nos arrepender com uma sinceridade que desarma. Podemos odiar de manhã e amar à tarde. Podemos construir durante anos e destruir em minutos. Podemos ser, num único dia, o pior e o melhor de nós mesmos.
Somos a tese e o seu contrário. Somos a pergunta e a resposta. E é justamente aí que reside a esperança de que amanhã possamos ser um pouco melhor do que fomos hoje. Não por obrigação e sim por escolha.
