Por anos o Banco Master operou como uma máquina de influência disfarçada de instituição financeira e movimentou bilhões de reais nos mercados onde atuava, junto aos parlamentares, nos escritórios de advocacia, nas festas suntuosas e até em sets de filmagem nos Estados Unidos.
Quando o Banco Central liquidou a instituição, em novembro de 2025, o rastro de dinheiro já havia alcançado muitos endereços.
A história do Banco Master não é apenas a história de uma fraude financeira e é um exemplo de como dinheiro distribuído pode comprar o silêncio e a cumplicidade de figuras importantes da República.
O Banco Master captava recursos de investidores com promessas de rentabilidade acima da média e emitia títulos que misturavam ativos sólidos com papéis podres.
A Operação Compliance Zero da Polícia Federal apontou o Senador Ciro Nogueira, autor de projeto para aumentar o valor do Fundo Garantidor de Crédito (FGC) para R$1 milhão, como suspeito do recebimento de milhões de reais do Banco Master.
A seguir o site Intercept divulgou áudios com revelação que Flávio Bolsonaro, filho mais velho do ex-presidente Jair Bolsonaro, negociou diretamente com Vorcaro o aporte de 24 milhões de dólares para a produção do filme “Dark Horse”, um filme em homenagem ao seu pai.
Flávio Bolsonaro de imediato afirmou ser mentira, mas confirmou a negociação e negou ilegalidades.
A produtora brasileira do filme negou o recebimento de recursos do Banco Master.
O que chama atenção nos bastidores das investigações é o silêncio de todos os envolvidos com o Banco Master.
No mercado financeiro, operadores da Faria Lima conheciam há anos as inconsistências do modelo do Banco Master, mas o banco continuou captando e crescendo.
No mundo jurídico, a blindagem foi construída com o mesmo cuidado, com a contratação de escritórios de advocacia de familiares ligados a ministros de tribunais superiores.
No Congresso, o padrão se repetiu, com o oferecimento de benesses a parlamentares, a exemplo de Ciro Nogueira.
O dinheiro circulava e comprava mais do que contratos e filmes. Comprava a omissão conveniente de quem sabia, ou desconfiava, e preferia não perguntar.
Entre as questões que a Operação Compliance Zero ainda precisa responder está a mais incômoda de todas: como o Banco Master operou por tanto tempo sem que os mecanismos de fiscalização reagissem? Como o Banco Central demorou tanto a agir e intervir no Banco Master? Como o BRB foi persuadido a injetar bilhões no Banco Master e receber ativos podres?
O colapso do Banco Master deixou marcas que vão além do prejuízo financeiro, com investidores aguardando a recuperação de valores e grandes desembolsos feitos pelo FGC.
A Polícia Federal ainda não terminou de mapear a teia.
O que já é claro, porém, é o padrão. O Banco Master não comprou apenas silêncio. Comprou presença nos comitês de campanha, nas pautas do Congresso, nas salas de reunião dos maiores escritórios de advocacia do país. Distribuiu recursos com a generosidade calculada de quem sabe que, em Brasília, ninguém é tão honesto que não tenha um preço e ninguém é tão corrupto que não prefira não ser chamado assim.
Todo mundo sabia que alguma coisa estava errada, mas muitos queriam ser beneficiados dos milhões distribuídos pelo Banco Master. Assim, enquanto o dinheiro circulava, o silêncio imperava e só era interrompido por pedidos de recursos.
