Acordo às três horas da madrugada. Após um início de sono difícil, onde inicialmente estava com sono, mas o sono desapareceu quando deitei na cama, não vi quando desmaiei de cansaço. Entretanto, eis que de repente o sono foi embora sem aviso, sem explicação, e por mais que eu me virasse de um lado para o outro na cama, ele não voltou. Isso nunca tinha me acontecido antes, e hoje se repete quase toda noite: durmo, e num instante qualquer, sem motivo, estou de olhos abertos no escuro.
Levanto e percorro a casa. Todos dormem. Vou até a sacada respirar e a rua está vazia, o silêncio é enorme, e uma solidão me aperta o peito. Passo pela cozinha, tomo um copo de água, volto para a cama, e nada muda, o sono continua ausente. Evito telas de celular, computador ou televisão, pois sei que elas só afastam ainda mais o descanso; resta-me um livro, algumas páginas lidas devagar, enquanto pondero: com quem posso falar a essa hora? Há vontade de sair, de caminhar, de conversar com alguém, mas está tudo fechado, tudo escuro, e ninguém acordado para dialogar.
Nem penso em usar remédio para dormir, pois quase todos trazem dependência e efeitos colaterais complicados a médio e longo prazo. Então não tem remédio para remediar a minha falta de sono e só cabe ficar à espera. Depois de uma hora e meia entre a cama, a sacada e a cozinha, o sono enfim retorna,
O que mais pesa nessa perda de sono não é a insônia em si, mas a solidão que vem junto. Não ter a quem recorrer é angustiante, quase deprimente: dá uma sensação de inexistência sem motivo aparente. Ligar para alguém está fora de cogitação, ninguém gosta de ter o sono interrompido, e uma ligação de madrugada costuma soar como má notícia e assustar quem atende. Sobra ler ou escrever, aproveitando o próprio silêncio como combustível de inspiração, enquanto penso em você, que lê isto agora provavelmente já bem alimentado de horas de descanso.
No dia seguinte, comentei com algumas pessoas que perdi o sono, e descobri que muitas também o perdem com frequência. Sinto um alívio silencioso, pois não estou só nesse sofrimento. Proponho então formar um grupo dos “vitimados pela perda do sono”, um pequeno círculo em que, sempre que a madrugada pegar alguém acordado, basta mandar uma mensagem para os outros e a começar uma conversa animada, mas nunca sonolenta.
Não sei se esse grupo cura a insônia de alguém, provavelmente não. Mas ele muda algo essencial, pois transforma a solidão em companhia. A madrugada continua vazia lá fora, mas deixa de estar vazia aqui dentro, porque agora sei que, do outro lado da tela, há alguém tão acordado quanto eu, disposto a trocar duas ou três frases sobre nada, só para lembrar que ninguém está sozinho no escuro. Não desejo a insônia para ninguém, é um ato solitário e angustiante, mas, se ela chegar, que ao menos encontre uma mensagem esperando para ser respondida.
