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Foto: Matheus Camara da Silva (https://unsplash.com/pt-br/fotografias/um-grande-grupo-de-pessoas-em-camisas-amarelas-e-verdes-EZc3RzXC89o)

Quando a fé vira trincheira

“Nenhuma palavra perniciosa deve sair dos vossos lábios, mas sim alguma palavra boa, capaz de edificar oportunamente e de trazer graça aos que a ouvem.” (Efésios 4,29)

A política brasileira vive uma perigosa união entre o altar e o palanque. Não se trata de proibir que pessoas de fé participem do debate público. O problema começa quando a religião deixa de inspirar a consciência e passa a servir de critério para separar amigos de inimigos.

Após a reeleição do presidente Lula, circulam nas redes sociais discursos que pedem a eleitores de Flávio Bolsonaro que deixem de consumir produtos e serviços de quem votou no presidente e até de contribuir com iniciativas de caridade ligadas a esses eleitores. Alguns vão além e afirmam que a esquerda não defende valores cristãos e que o país vive “uma crise espiritual disfarçada de crise política”.

Deixar de comprar de alguém por divergência política é, em regra, uma escolha individual e lícita. Entretanto, a campanha pública que incentiva a punição econômica de quem votou diferente é outra coisa, sobretudo quando mira empregos e circula em forma de listas. Nesse ponto, a conduta pode configurar coação eleitoral, discriminação no trabalho e assédio eleitoral, com consequências penais, trabalhistas e civis.

O contraste com o Evangelho é gritante. Paulo pede que desapareçam “amargura, irritação, cólera, gritaria, injúrias”, e que os cristãos sejam bons e compassivos uns com os outros. Jesus vai além e manda amar até os inimigos (Mateus 5,44) e ensina que o que se faz ao menor dos irmãos é feito a ele (Mateus 25,40). Dificilmente esse ideal se concilia com a proposta de isolar economicamente o vizinho por causa do voto. E a caridade, que na tradição cristã é dada sem perguntar em quem o necessitado votou, perde o essencial quando passa a ser condicionada à preferência eleitoral.

Há ainda a questão de nenhum campo político deter o monopólio da fé. Além disso, o Estado brasileiro é laico e garante a cada um o direito de crer e de votar conforme a consciência.

A lógica do boicote também alimenta uma disputa sem fim. Se cada eleição produz perdedores a serem punidos no mercado, na igreja e na vizinhança, a derrota deixa de ser etapa da democracia e vira ferida permanente. A alternância de poder, essência do regime democrático, torna-se um ciclo de represálias.

Quem tem milhões de seguidores carrega responsabilidade proporcional, pois suas postagem repercutem e causam prejuízos concretos.

Ninguém deve pagar um preço pelo voto que deu, venha a pressão de onde vier. E, de quem invoca o nome de Cristo, espera-se coerência com o que ele ensinou.

A democracia sobrevive à derrota eleitoral. Não sobrevive a uma política em que perder significa perder também clientes, doadores, empregos e amizades. Quem fala em nome de Cristo pode, ao menos, começar por não perguntar em quem o outro votou.

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