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Foto: Ricardo Stuckert (https://www.fotospublicas.com/acervo/politica/presidente-da-republica-luiz-inacio-lula-da-silva-o-evento-%22lula-em-sao-paulo:)

Por que Lula virou e Flávio perdeu o segundo turno

As pesquisas das eleições presidenciais no Brasil no primeiro turno apontavam leve favoritismo de Lula, mas as urnas tiveram Flávio Bolsonaro na frente, com 47,03% dos votos válidos contra 45,16% de Lula, uma vantagem de mais de 2,2 milhões de votos.

O impacto foi imediato e diferente nos dois lados.

No comitê de Lula, o primeiro momento foi de desespero. Passado o susto, veio o diagnóstico de falta de uma consistente campanha digital, da necessidade de levar as pessoas para a rua, da obrigação de voltar às origens de Lula e ocupar as ruas.

No campo de Flávio, o clima foi de total confiança, embalado pela máxima de que quem vence o primeiro turno leva o segundo.

Neste momento, tivemos de um lado tudo ter dado errado e de outro ter tudo dado certo.

Entretanto, três semanas depois, o resultado foi outro. As pesquisas mostravam uma disputa acirrada e Flávio favorito, mas as urnas reelegeram Lula, com mais de 4 milhões de votos de vantagem. E pergunto, como foi possível isto?

Lula reconheceu os seus erros no primeiro turno, fez o diagnóstico e mudou rotas imediatamente. Foram convocados os nomes do PT espalhados pelo país, como Ana Elisa, Rafael Fonteles e André Janones. Com o comando de um presidente experiente e o slogan “Bora Lula”, a campanha ganhou unidade e energia. Janones criou o canal “Exército de Lula” no WhatsApp, que saltou de alguns milhares de inscritos para mais de 10 milhões. Com missões diárias, o canal transformou simpatizantes em militantes e fez a esquerda rivalizar com a direita, que sempre dominou esse terreno. As redes digitais geraram convocações para  manifestações, principalmente nas capitais e nas grandes cidades, lideradas por jovens, estudantes e idosos. A campanha passou a transmitir a sensação de virada em andamento, e essa sensação mobilizou os eleitores.

Flávio por sua vez tratou a eleição como decidida. Discutia-se a passagem da faixa presidencial, a escolha de ministros, a política econômica, o tamanho do corte de gastos, privatizações e venda de imóveis públicos. Enquanto isso, havia voto a conquistar, e quem comemora antes do apito final dá espaço para o adversário. A campanha de Flávio confiou na vantagem do primeiro turno e na força digital que a direita já tinha. Quando a esquerda reagiu, não houve resposta à altura. Nos debates, Flávio foi displicente com o adversário, desrespeitou a idade de Lula e o chamou de “nove dedos”. A atitude pegou mal junto a parte do eleitorado e reforçou a imagem de arrogância. Na verdade, a campanha confiou nas pesquisas que já tinham errado no primeiro turno, e voltaram a errar no segundo. No início do dia 25 de outubro, Flávio era apontado como favorito, e no fim da noite Lula foi reeleito.

O clima “já ganhou” virou salto alto, e o salto alto virou erro de campanha. O primeiro turno premiou quem estava na frente, e o segundo premiou quem trabalhou mais. A eleição foi decidida por dois comportamentos: a campanha de Lula, depois do susto, agiu como quem estava atrás, e a de Flávio se comportou como quem já havia vencido.

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