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Sao Paulo- SP- Brasil- 02/01/2017- Nuvens carregadas no céu de São Paulo, no fim da tarde desta segunda-feira (02/01). Foto: Fernanda Carvalho/ Fotos Públicas

Tempos nebulosos

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Foto: Fernanda Carvalho/ Fotos Públicas

 

 

Era dia primeiro, nuvens no céu impediam a passagem dos raios do sol…

A passagem da guarda oficial foi aplaudida.

Na favela pessoas corriam, caiam, eram pisadas. Batida, batida policial.

Era dia primeiro, nuvens não deixavam ver o horizonte.

Na passeata de protesto pacífica, um policial, irado com a manifestação, atirou e feriu uma senhora, mãe de três filhos. Correram para o hospital. Não houve tempo, no caminho morreu, três crianças órfãs choraram.

Era dia primeiro, nuvens tomavam o céu.

Indústrias de armamentos eram a nova vedete do empreendedorismo nacional. Eram fabricadas armas para armar o povo e combater a violência, agora aumentavam a violência e faziam a alegria dos empresários.

Era dia primeiro, ventou e nuvens foram e outras voltaram.

Em um assalto, policiais atirando a esmo, mataram todos os assaltantes e alegaram resistência dos assaltantes. Ao final, 8 mortos e os meios de comunicação exaltaram os policiais.

Era dia primeiro, ventos fortes anunciavam chuva torrencial.

Sindicato invadido, líderes presos, cadeias lotadas, sala de interrogatório fechada com ruído dos gritos das dores da tortura.

Era dia primeiro, chuvas torrenciais não espantam a platéia.

Gritos e gemidos, correria na esquina, multidão a correr do pelotão de repressão, protesto contra a tirania dispersado.

Era dia primeiro, relâmpagos fortes assustam as pessoas.

Cavalaria parada, manifestantes com cartazes e gritos de protestos do outro lado. Cavalaria dispara, cavalos escorregam nas “bolinhas de gude” jogadas pelos manifestantes.

Era dia primeiro, raios fazem estrondo.

Manifestantes presos, cadeia lotada contém mais presos políticos do que presos comuns. Novos presos políticos são recebidos sob aplausos e gritos de ordem.

Era dia primeiro, chuva torrencial espanta a plateia.

Mulheres protestam, homens também, policiais se juntam aos manifestantes pedindo pão e comida. Pedem justiça, salário pago em dia, garantia do poder aquisitivo dos salários e dos benefícios sociais. Exército reprime, muitos mortos, manchete nos jornais condena os excessos de ambas partes.

Era dia primeiro, nuvens paradas, sem chuvas.

O inquérito começa, procura-se os culpados, é preciso achar um, quem quer que seja. Descobrem ser líder o engravatado, filho do senhor tal. Afirma não poder ser este, tem que ser outro, este é filho de gente “importante”. Nisto passa José, pessoa simples e humilde, pedem a ele para assinar e ele, obediente, assina a confissão. Gritos de prisão para ele, pois confessou tudo.

Era dia primeiro, temporal acabou, nuvens ficaram, não foram embora.

Faixa passada, posse tomada. Do outro lado da cidade, manifestantes são surrados, ficam com marcas e feridas por todo o corpo.

Era dia primeiro, nuvens se juntam, o céu se fecha.

“Acabou, agora é nossa vez”, diz o transeunte. “Quem não concordar com a nova ordem, deixe o país, senão serão perseguidos”. Os manifestantes não se importam, gritam ser esta terra de todos, proferem palavras de ordem e de união.

Era dia primeiro, não há previsão de tempos bons, nuvens por toda a parte.

O trabalhador sente dores, é diagnosticado com uma inflamação, vai ao hospital, não tem dinheiro para pagar o atendimento e nem o sistema de saúde público cobre os custos. Pede dinheiro emprestado, juros abusivos, médico cobra 10 mil. Trabalhador opera, tem atestado médico para ficar de 60 dias de repouso, afasta do trabalho e a perícia do sistema previdenciário nega ser devido o pagamento do período de afastamento.

Era dia primeiro, nuvens ficam mais densas.

Pedinte pede dinheiro para comprar comida na porta do supermercado, ninguém dá. Ao final do dia, procura uma coberta para dormir e é acordado pela polícia. Diz não ter onde dormir, sua família toda morreu, pede abrigo público e não consegue.

Era dia primeiro, nuvens se avolumam.

O pobre menino era um gênio, uma grande promessa, somente tirava notas máximas. Na escola lanchava e almoçava. Em casa não tinha o que comer. Teve que trabalhar cedo, em barraca de rua, para ajudar no sustento da casa.

Era dia primeiro, nuvens fazem desabar uma grande tempestade.

Trabalhador com 45 anos de trabalho ininterrupto, requer a aposentadoria e tem o seu pedido negado, por faltar um ano. No ano seguinte, faltando um dia para completar tempo, morre de infarto no trabalho, depois de terminar as suas tarefas diárias.

Era dia primeiro, chuvas recrudescem, chove granizo.

Trabalhador há 35 anos contribuiu para a previdência pelo teto máximo, requer aposentadoria e é informado que as regras mudaram e receberá metade do valor que contribuiu. Espera-se dias de aperto financeiro na família.

Era dia primeiro, noite chegou, nuvens continuam no horizonte.

Amanhã será mais um dia difícil.

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