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Foto: RS via Fotos Publica (https://www.fotospublicas.com/acervo/meio-ambiente/chuvas-fortes-em-juiz-de-fora-e-uba-na-zona-da-mata-de-minas-gerais-deixam-mortos-e-feridos)

Roleta russa do verão: Zona da Mata entra na estatística das tragédias

O dia 23 de fevereiro adicionou mais um episódio ao ciclo que se repete a cada verão no Brasil. Desta vez, a tragédia atingiu a Zona da Mata, em Minas Gerais. Chuvas intensas alcançaram municípios como Juiz de Fora e Ubá. O resultado foi a morte de mais de 70 pessoas, além de danos a moradias, vias públicas e equipamentos urbanos.

Moradores tentaram resgatar vizinhos isolados pela água. Imóveis cederam. Ruas ficaram submersas. Veículos foram arrastados. Caixões de funerária foram levados pela enxurrada. As ocorrências revelam o impacto sobre áreas urbanas ocupadas sem estrutura compatível com eventos climáticos recorrentes no período chuvoso.

A repetição anual desses episódios consolida a percepção de que a Zona da Mata, assim como outras regiões do país, integra uma espécie de roleta russa climática. A cada início de ano, permanece a incerteza sobre qual cidade será atingida. O regime de chuvas intensas é conhecido. O que persiste é a insuficiência de medidas capazes de reduzir riscos e danos.

O padrão já foi observado em outros momentos. Em 15 de fevereiro de 2022, Petrópolis, no estado do Rio de Janeiro, registrou 260 milímetros de chuva em cerca de seis horas. Houve mais de 200 deslizamentos, desabamentos e centenas de mortes.

A ocorrência na Zona da Mata seguiu a mesma lógica estrutural, estimuladora de tragédias. A expansão de construções em encostas e margens de rios avança sem fiscalização contínua. A impermeabilização do solo reduz a infiltração da água. Sistemas de drenagem não acompanham o crescimento urbano. A limpeza de bueiros e canais pluviais não é regular. A dragagem de rios não segue planejamento permanente. O resultado é a ocupação de espaços sem planejamento e sem preparação para os eventos climáticos adversos.

Após o desastre, autoridades estaduais mencionaram investimentos e ações estruturais efetuados. Os efeitos dessas políticas, contudo, não impediram o colapso da drenagem urbana nem evitaram perdas humanas. A responsabilidade envolve municípios, estado e União, que possuem competências constitucionais relacionadas ao ordenamento territorial, à infraestrutura e à defesa civil.

Sistemas de alerta não alcançaram toda a população exposta. Planos preventivos não retiraram moradores de áreas de risco com antecedência suficiente. Enfim, quando o volume de chuvas supera a capacidade das estruturas existentes, o cenário se repete.

A realidade que se impõe é que grande parte das cidades brasileiras não está preparada para suportar volumes elevados de precipitação. No calendário nacional, além do carnaval, há um evento previsível no início do ano, de temporais concentrados em diferentes regiões gerando tragédias.

A cada verão, a roleta gira novamente. A Zona da Mata ocupa agora o centro das estatísticas. Antes dela, Petrópolis. Depois, outro município, outra região. Permanecem as falhas estruturais, a ausência de prevenção eficaz e a repetição de mortes.

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