Todos os ordenamentos jurídicos democráticos têm como inspiração a proteção e preservação da vida dos seus cidadãos, diferentemente das ditaduras cerceadoras de direitos civis e políticos básicos.
No dia 01.09 um homem tentou atirar contra a vice-presidente argentina, Cristina Kirchner. O suspeito do atentado é nascido no Brasil, mas vive desde criança fora do nosso país e o ocorrido não tem ligação com questões internas do Brasil.
Houve falha na segurança, pois não é aceitável uma pessoa furar o cerco e encostar o revólver na cara da vice-presidente. O episódio somente não foi fatal, porque a arma falhou.
Esse ocorrido na Argentina faz parte de um mundo atual repleto de intolerância política, onde o opositor é tratado como inimigo.
Nesse quadro, de tempos estranhos, líderes políticos, inclusive a oposição Argentina, falam e estimulam a ação direta contra os seus opositores.
No Brasil, o presidente da República tem repetido que o povo armado jamais será escravizado, com ligação da arma à independência política e, portanto, convida alguém possuidor de arma a usá-la, em nome daquilo que ele considera libertação.
Uma coisa é a pessoa se sentir oprimida, não concordar com o governo, etc. Daí, ela pode ir para a rua protestar, manifestar, fazer proposta. Agora, quando se encoraja ser a arma um caminho para garantir a sua independência, uma pessoa pode acreditar e, em um ato extremo, usar de fato a arma. Ocorrendo isto, passamos a ter um caso de polícia, com o agressor direto sofrendo as consequências penais, mas o incitador (dono do discurso político) sai ileso e até discursa, convenientemente, contra atos de violência.
Jair Bolsonaro se manifestou sobre o atentado contra a vice-presidente: “Lamento. Tem gente querendo botar na minha conta esse problema e o agressor ainda bem que não sabia mexer com arma, se soubesse teria sucesso.”
A afirmação “ainda bem que não sabia mexer com arma” é contraditória com os seus discursos a favor das armas, inclusive com narração como uma de suas realizações o aumento do número de Clubes de Tiros e de armas no país.
Caso as lições de Bolsonaro tivessem sido aprendidas pelo agressor de Cristina, teríamos tido um resultado fatal.
No dia seguinte, 02.09, Bolsonaro esteve na Expointer, em Esteio, RS, e afirmou: “Hoje vocês têm a posse e porte de arma estendido. Um orgulho nosso: dobramos o número de CACs e hoje somos 700 mil CACs pelo Brasil. Armas de fogo são mais que a certeza familiar são a certeza que essa Pátria jamais será escravizada.”
Essa fala foi no dia seguinte ao atentado contra Cristina Kirchner, governante de um país vizinho e um dos nossos principais parceiros comerciais.
Essas falas não fazem parte de um conservadorismo de direita e são efetuadas por quem tem o dever de garantir a paz interna, nos termos do artigo 85, da Constituição Federal. Servem a um projeto de uso das armas, em apologia e incentivo a violência, tudo sob os olhares omissos de órgãos de controle da nossa República.