Foto: Pixapay – public domain
O Brasil é um país rico em recursos naturais e tem experiência em negócios diretamente ligados à extração de minérios e do agronegócio. O retrato dos produtos exportados mostra nossas riquezas.
Pelos dados do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial, Iedi, em 2018 o Brasil teve um déficit na balança comercial da indústria de transformação de US$ 25,2 bilhões, com piora expressiva relativamente a 2017, quando tivemos déficit de US$ 3,2 bilhões. Já nos produtos básicos, tivemos superávit de US$ 83,82 bilhões, com a exportação de ferro, petróleo bruto, soja, carnes, celulose, açúcar, café, e foi esse que garantiu em 2018 o segundo maior superávit de nossa balança comercial, de US$ 58,6 bilhões.
Detemos uma produção primária, praticamente dependentes do extrativismo e com baixa tecnologia. Os governos se sucedem e não vemos empenho em ter no país centros de tecnologia de ponta para nos tornar um país com soluções tecnológicas adaptadas à nossa realidade e nem mesmo adotarmos políticas incentivadoras voltadas para a produção de manufaturas.
Nem sempre foi assim.
Com a Revolução de 1964 o governo iniciou uma política de subsídios para setores industriais específicos e, no final da década de 1970, tínhamos o oitavo maior complexo industrial do mundo.
As crises dos anos 1970 e 1980, do petróleo e do endividamento externo, levaram o país a assinar acordos com o Fundo Monetário Internacional, FMI, pelos quais fomos obrigados a cortar gastos e com isto foi inibida a capacidade do Estado incentivar o desenvolvimento. O resultado foi o desmonte das estruturas de financiamento e o capital foi direcionado para aplicações seguras em títulos da dívida pública.
Na década de 1990 tivemos a abertura comercial, privatizações, desregulamentação, ajuste fiscal.
Na metade da década de 2000 foi quando aprofundou-se a participação dos recursos naturais no total exportado, refletindo a ascensão de uma nova classe média chinesa consumidora e pesados investimentos em infraestrutura na China. Esta especialização não permite o Brasil dar saltos tecnológicos, além disto importamos bens sofisticados e exportamos produtos básicos.
As grandes potências econômicas mundiais têm adotado ações estratégicas de fortalecimento de suas grandes empresas detentoras, principalmente as de peso tecnológico e consumidoras de energias limpas.
O Presidente americano, Donald Trump, através da política externa chamada de “America First”, tem apoiado as grandes empresas locais com uma guerra comercial contra a China, restrições a investimentos chineses, política protecionista das empresas americanas, sobretudo as dotadas de alta tecnologia.
A China também tem apoiado as suas grandes empresas, com uma política de expansão agressiva e com metas de ser líder mundial em diversos setores, como aeroespacial, inteligência artificial, robótica, dispositivos médicos, ferrovias, tecnologia da informação avançada, equipamentos oceânicos e navegação, automóveis utilizando nova energia, equipamentos de energia elétrica e agrícolas.
Os europeus não ficaram indiferentes neste cenário de protecionismo.
A Alemanha acredita que para um país ser bem-sucedido não pode depender apenas das forças de mercado e pretendem intervir para não perder capacidade tecnológica e ter um papel mais ativo na economia mundial. Pretende-se proteger empresas de tecnologia e, se for necessário, fazer uma melhor oferta para se tornar um dono temporário.
A atual administração alemã já adotou medidas para proteger as empresas tecnológicas e o seu interesse. Em 2017 vetou a venda da empresa de robótica, Kuka, para a chinesa Midea.
A Alemanha, liderando a União Européia, pretende atuar em bloco na economia para defender os seus interesses, principalmente contra as investidas dos Estados Unidos e da China.
Neste contexto, da mesma forma, o Brasil precisa proteger as suas grandes empresas, geradoras de emprego e de tributos, além de estimular as novas empresas de tecnologia.
Um exemplo de nossa capacidade de fazer a alegria de países que lutam por suas grandes empresas, principalmente de alta tecnologia, é a entrega de toda a produção do portfólio comercial da Embraer para a Boeing, em uma operação nitidamente favorável aos interesses americanos e perniciosas aos interesses brasileiros. Foi criada uma nova empresa, que assumirá toda a linha de montagem comercial da Embraer, com 80% de participação da Boeing e minoritária de 20% da Embraer, a Embraer receberá 3,8 bilhões de dólares, a sede será no Brasil, mas o controle operacional e a gestão serão da Boeing. É flagrante o prejuízo para o Brasil, fruto da visão pequena dos envolvidos na negociação.
Não podemos deixar que grandes empresas, ícones nacionais, tenham o mesmo destino da Embraer. Devemos proteger, por exemplo, a Petrobrás, o Banco do Brasil, a BR Foods, a Ambev, a JBS, a Andrade Gutierrez, Banco Itaú, Vale, Gerdau, Cemig, Natura, etc.
Em nome da soberania empresarial nacional, o Brasil deve estancar a nova onda política de liquidação do patrimônio público e privado e, desta forma, valorizar e proteger as empresas genuinamente nacionais, para evitar a aquisição por grandes conglomerados externos. Deve agir como todas as grandes potências e lutar abertamente para as empresas continuarem sobre o controle nacional, utilizar todos os meios diplomáticos para proteger os seus interesses e não abrir mão de ter grandes expoentes em diversos setores econômicos.