A história não é feita de rupturas isoladas, mas de um processo contínuo. Cada época carrega marcas próprias, moldadas pelas condições materiais, culturais e espirituais que definem o seu tempo. Ao longo dos séculos, mudam-se as formas de viver, pensar e organizar o poder, mas permanece a inquietação fundamental que acompanha a experiência humana.
Há centenas de anos, antes da comunicação instantânea e das facilidades de transporte, poucas pessoas tinham contato com alguém além dos limites de sua aldeia. Em geral, nascia-se e morria no mesmo lugar. Reis exerciam autoridade quase absoluta, enquanto a vida cotidiana era rigidamente orientada pela religião institucionalizada e por uma ordem social que impunha valores em detrimento das liberdades individuais. O poder concentrava-se nas mãos de poucos.
Com o Iluminismo, tivemos o florescimento das ideias democráticas e seu marco decisivo foi a Revolução Francesa de 1789, que consagrou os ideais de liberdade, igualdade e fraternidade. Espalhou-se, a expectativa de uma nova ordem social, fundada na razão e nos direitos do indivíduo.
Nesse contexto, o Iluminismo, o liberalismo e a revolução científica alteraram profundamente a forma de compreender o mundo. A razão conquistou centralidade, enquanto a fé, em muitos casos, foi deslocada para as margens da experiência humana.
Entretanto, os avanços tecnológicos e culturais, sobretudo após duas grandes guerras mundiais, trouxeram consigo uma inquietação inesperada. A humanidade passou a se perguntar se o caminho trilhado conduziria, de fato, à felicidade. O mundo mudou em ritmo acelerado, mas não mudou a busca humana por sentido e propósito.
Apesar do expressivo progresso, o desconforto e a solidão permanecem presentes na vida de muitas pessoas. Torna-se cada vez mais evidente que as transformações exteriores não produziram, na mesma medida, conforto interior e o desenvolvimento material não foi acompanhado por um fortalecimento equivalente do mundo interior.
Vivemos, assim, a realidade da necessidade de reconciliar o material e o espiritual. Esse caminho, contudo, deve ser buscado por cada indivíduo, na tentativa de alcançar equilíbrio e coerência.
Uma vida plena pode ser comparada a uma circunferência perfeita, que depende de um ponto central capaz de orientar toda a sua forma. Colocar os bens materiais nesse centro é um equívoco, pois a plenitude da vida está vinculada a propósitos, e não a objetivos materiais. Esses propósitos transcendem interesses individuais e se conectam a exemplos de vidas religiosas marcantes, como a de Jesus Cristo. Trata-se de um movimento semelhante ao do filho que busca não decepcionar a mãe, não por obrigação, mas pelo desejo sincero de alegrá-la.
É neste final de 2025, e na expectativa de um 2026 mais promissor, que se impõe a necessidade de buscar propósitos mais significativos. Em meio ao progresso e às incertezas, talvez resida aí o verdadeiro desafio de alinhar o avanço exterior com o amadurecimento interior.
