A disputa do segundo turno da eleição para a presidência da República em 2022 mostra chapas antagônicas, mas o vitorioso terá de incorporar novos pleitos da sociedade.
Jair Bolsonaro teve um governo marcado por posicionamentos inconcebíveis, como admiração a ditaduras e torturadores, ataques às instituições democráticas (Congresso Nacional, Supremo Tribunal Federal, urna eletrônica, etc.), negacionismo da ciência, politização das políticas sanitárias na pandemia do coronavírus (demora na aquisição de vacinas, incentivo ao uso de medicamentos ineficazes e à imunização comunitária, desincentivo às medidas preventivas (uso de máscaras, gel, distanciamento social)), desmonte dos mecanismos de fiscalização ambiental, política de armamento da população sem critérios objetivos, volta do Brasil ao mapa da fome, etc.
Apesar de tudo, Bolsonaro tem alas de admiradores. Os militares, corporativamente, o apoiam por terem suas carreiras valorizadas, aumento de proventos e a garantia de aposentadorias especiais, mas temem tragédias causadas pelo uso indiscriminado de armas pelos civis. Os evangélicos foram beneficiados com isenção de impostos. Os empresários sentiram ares da dita liberdade preconizada por Bolsonaro, com a diminuição de fiscalização do poder executivo (ambiental, trabalhista, fiscal, etc.).
Bolsonaro representa um governo com menos presença do Estado. Fala muito, mas fez muito pouco em seu governo. Diferente de suas ideias, às vésperas das eleições, tentou titularizar ações sociais realizadas pelo Partido dos Trabalhadores. Mudou o nome do Bolsa Família para Auxílio Brasil e o reajustou para R$ 400 e R$ 600 (até 31.12.2022), mas isso não retirou votos de Lula.
O ex-presidente Lula teve mais votos no primeiro turno, mas em número menor do que o esperado. Ele se apresenta como a antítese de Bolsonaro, mostra maior trânsito com o poder judiciário e tem melhor aceitação no cenário internacional. Tem o trunfo de poder apresentar os ganhos de seu governo nos campos econômicos (grau de investimento, acúmulo de reservas cambiais, alto índice de crescimento, etc.) e sociais (Bolsa Família, farmácia popular, aumento real do salário mínimo, programa Minha Casa Minha Vida, etc.).
Lula representa um governo com mais presença do Estado, com ações para garantir mais renda para a população mais vulnerável e, com isso, movimentar a economia real.
A disputa está indefinida, muitos votos estão sedimentados, mas o vencedor terá de incorporar algumas das ideias de seu atual oponente. Bolsonaro terá de ter um senso social desde o primeiro dia de governo. Por sua vez, Lula terá de aprimorar a máquina pública para agir como parceira dos negócios legais, mas sem deixar de preencher lacunas deixadas pelo governo de Bolsonaro, como repressão de crimes contra o meio ambiente, garimpo ilegal, invasão de terras, queimadas ilegais, milícias, etc.