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Foto: Clarissa Watson (https://unsplash.com/pt-br/fotografias/mulher-na-camiseta-verde-4hZ3bXQBJi4)

Áurea: quando resistir é a forma mais silenciosa de vencer

Áurea nasceu pobre, na fazenda, onde a terra ensinava cedo que nada vinha fácil. Gostava do estudo tanto quanto do trabalho, como se intuísse que aprender também era uma forma de plantar o futuro.

Aos onze anos, passou a cuidar da casa e da pequena venda de produtos agrícolas montada à porta. A mãe, doente, já não conseguia sustentar o ritmo do lar, e a menina assumiu responsabilidades de adulto antes do tempo. Ajudava o pai no negócio, vendia, fazia contas, mantinha a casa funcionando.

Concluiu a quinta série e quis continuar estudando. Para isso, precisaria ir para a cidade. O pai disse não. A escola ficou para depois — um depois que nunca chegou. As irmãs seguiram para a cidade, conquistaram estudo, horizontes, escolhas. Áurea ficou.

De uma das irmãs veio a frase, dita sem remorso: “Você é negra e tem de ficar para trabalhar mesmo”. A sentença feriu, marcou, abriu cicatriz, mas não destruiu o que havia de mais resistente nela: a esperança teimosa de dias melhores.

Com a morte da mãe e, depois, do pai, a casa da fazenda tornou-se grande demais para o silêncio. Já moça, Áurea mudou-se para a cidade. Arrumou namorado. As irmãs já estavam casadas, cada uma seguindo a própria vida, como se jamais tivessem compartilhado a mesma origem.

Veio o casamento, depois a gravidez. Da união nasceram cinco meninos, cada um trazendo amor e preocupação em igual medida. Vieram também o trabalho duro, a escassez, as contas acumuladas, o cansaço que não dorme. Morava perto das irmãs, em um imóvel herdado dos pais, herança mais de paredes do que de afeto, mais de obrigação do que de acolhimento.

Aos quarenta anos, a vida lhe impôs outra batalha: um câncer de mama. Operou, fez quimioterapia e radioterapia, o corpo ficou fraco, o cabelo caiu. Os parentes e amigos tiveram preconceito. As irmãs quiseram visitá-la. Áurea recusou.

Sobreviveu. Curou-se. A vontade de criar os filhos pequenos venceu a doença. Mudou-se para longe das irmãs e nunca mais as viu. O rompimento foi definitivo, não por ódio, mas para preservar a própria família do exemplo perverso das irmãs.

A vida seguiu áspera. Muito trabalho, muitas privações. Criou os filhos como pôde, com erros e acertos, mas com uma regra inegociável: estudar. Queria para eles o que lhe fora negado.

Viu-os crescer, tornar-se adultos, ocupar espaços que ela nunca pôde ocupar. E, mesmo sem diplomas, sem reconhecimento público, sem homenagens, Áurea venceu à sua maneira. Venceu porque resistiu. Porque não reproduziu a exclusão que sofreu. Porque transformou dor em cuidado e abandono em direção.

Sua história não virou manchete, não entrou nos livros, não recebeu medalhas. Mas permanece viva nos filhos que educou, nos caminhos que abriu e na dignidade silenciosa de quem, mesmo privada de escolhas, nunca abriu mão da esperança.

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