A música “Polícia”, dos Titãs, ecoa como um grito que atravessa gerações ao traduzir a tensão permanente entre poder e população. A revolta ali cantada nasce do acúmulo de contradições, da sensação persistente de injustiça e da percepção de que as regras não se aplicam a todos da mesma forma.
Em 2025 não foi diferente e os acontecimentos produziram exaustão social e sentimento de abandono para parcelas da sociedade.
O debate em torno da anistia e da dosimetria das penas para os envolvidos nos ataques de 8 de janeiro de 2023 e na tentativa de golpe de Estado arrastou-se por meses. O que deveria permanecer no campo jurídico foi capturado pela disputa política. As discussões só avançaram após a prisão do ex-presidente Jair Bolsonaro e sua posterior sinalização favorável à aprovação da lei de dosimetria, evidenciando como decisões estruturantes do Estado seguem condicionadas a interesses individuais e circunstanciais.
No plano cotidiano, um caso envolvendo uma ministra da Igreja, que ao entregar a hóstia fez um gesto de desprezo a um desafeto pessoal, expôs a confusão entre poder espiritual e vaidade humana. A reação do fiel, cansado de humilhações reiteradas, rompeu o ritual do silêncio e reposicionou a autoridade em seu devido lugar. O episódio revela um traço recorrente do tempo presente: o esgotamento da tolerância diante do abuso, mesmo quando ele se disfarça sob símbolos sagrados.
No cenário internacional, o Brasil enfrentou sanções econômicas impostas pelos Estados Unidos, com tarifas elevadas sobre produtos do agronegócio e da indústria, além de medidas pessoais como cassação de vistos e punições a ministros do Supremo Tribunal Federal. O deputado Eduardo Bolsonaro assumiu publicamente o protagonismo dessas articulações. O resultado foi desgaste diplomático, mas, ao final do ano, os Estados Unidos recuaram e revogaram grande parte das medidas.
No plano interno, a aprovação da chamada PEC da Blindagem pela Câmara dos Deputados evidenciou uma tentativa de autoproteção do Legislativo, com ampliação do foro privilegiado e a exigência de autorização da Casa para prisões ou abertura de processos contra parlamentares. O posterior arquivamento da proposta pelo Senado demonstrou a relevância da vigilância da opinião pública diante de iniciativas que tensionam o princípio da igualdade perante a lei.
Somou-se a esse cenário o episódio envolvendo um deputado federal da extrema direita flagrado com mais de R$ 400 mil em dinheiro vivo em seu apartamento, reacendendo o debate sobre corrupção seletiva, hipocrisia política e a distância entre a retórica anticorrupção e a conduta efetiva de seus porta-vozes.
A convergência desses fatos ajuda a explicar a chamada “revolta da ralé”: uma reação de quem observa, reiteradamente, elites operarem acima das consequências. Quando as instituições falham, quando o poder se protege e quando a desigualdade moral se normaliza, a revolta deixa de ser exceção e passa a ser um desfecho previsível.
