O Brasil chegou a 494 cursos de Medicina em 2025, com a oferta de mais de 50 mil vagas anuais e mais de 80% em instituições privadas. Quando o MEC tentou frear o crescimento, grupos privados responderam pela via judicial para contornar os critérios técnicos de autorização.
Em outubro de 2025, o MEC aplicou o Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed). Das instituições avaliadas, 99 tiveram desempenho insuficiente e 42 terão processo de supervisão, 8 terão suspensão de entrada de novos alunos, 12 terão redução de 50% das vagas e 33 terão redução de 25% das vagas.
Os resultados expuseram um padrão inequívoco. Nas instituições públicas, nenhuma ficou com desempenho insuficiente. Entretanto, nas privadas com fins lucrativos foi onde tivemos instituições com desempenho insuficiente, formando profissionais despreparados para atender as necessidades básicas da população.
A lógica da expansão se entende ao observar quem lucra. Os grupos educacionais abriram capital na bolsa e passaram a negociar matrículas de estudantes como ativos em mercados globais, com participação de fundos de investimento nacionais e internacionais.
O mecanismo é simples. Onde os governos cortam o financiamento público, criando déficit de vagas; o setor privado ocupa o espaço, capitaliza-se e pressiona por crescimento; o crescimento exige mais alunos e mais cursos. O Fies completou o ciclo, com dinheiro público destinado a democratizar o acesso ao ensino, e tornou-se, na prática, subsídio à expansão privada.
Enquanto isso, as universidades federais enfrentam cortes orçamentários e um ataque de narrativa que as descreve como ineficientes. Os resultados do Enamed desmentem essa retórica e demonstraram serem as instituições públicas que formam os médicos mais competentes.
Esse movimento não é exclusivamente brasileiro. Após décadas de privatização de empresas estatais, agora os investidores, fundos e bancos de investimento buscam novos setores rentáveis. Saúde e educação, serviços vitais e de demanda permanente, tornaram-se os alvos seguintes. A estratégia passa por eleger políticos alinhados a essa agenda, como a defesa da “desburocratização” e “redução do Estado”, garantindo, na prática, que grupos educacionais expandam sem controle de qualidade, capturem recursos públicos via Fies e ProUni e abram cursos por liminar, enquanto o orçamento das federais é cortado e concursos para professores, suspensos.
No fim dessa cadeia está um paciente que depende do SUS e não escolhe o médico que o atende. Não se sabe se ele se formou numa instituição com desempenho insuficiente no Enamed, sem hospital de ensino, com autorização para funcionamento obtida na Justiça.
Formar médico virou produto. Abrir faculdade virou investimento. Cortar a universidade pública virou política fiscal. A questão não é se o setor privado pode atuar no ramo da educação médica, é se ele pode operar sem regulação, sustentado por dinheiro público e protegido por políticos com conflito de interesse. De modo geral, o Enamed deu o diagnóstico de ser o setor público mais competente para atender às demandas da saúde.
