Uma casa cheia de gente tem alma. As vozes se espalham pelos cômodos como fios invisíveis que sustentam o teto, as paredes e até o ar. O riso e os gritos das crianças ressoam pelos azulejos, o cheiro do café se derrama pelos corredores e convoca todos à mesa, e o piso range como se acompanhasse o compasso da vida que ali transborda. Há calor. Há movimento. Há o doce rumor da existência compartilhada.
A convivência em uma casa habitada é feita de emoções simples e indispensáveis. É ali que as pessoas encontram abrigo, descanso, alimento e o aconchego dos seus melhores instantes, o lugar onde a vida, de fato, se recolhe para existir.
Foi nessa fase que surgiram as formigas negras. Pequenas, grandes, obstinadas, pretas como luto. Varri, matei, eliminei. No dia seguinte, mais delas. Dizem que formigas anunciam despedidas, que carregam nos passos a antecipação do fim. Talvez carregassem mesmo.
Depois delas, a casa começou a se esvaziar. E tudo se transformou. O silêncio deixou de ser quietude e virou um ruído medonho. As portas passaram a bater ao menor sopro, as janelas gemeram, o chão se queixou, o reboco se desprendeu. Uma casa sem gente é um corpo abandonado que respira em suspiros frios, murmura em madeiras que estalam, guarda memórias que insistem em permanecer.
A quietude, antes doce, se transformou no tempo que não passa. É nesse cenário que se compreende como o movimento humano é o que realmente sustenta um lar. Tudo o que é vivo precisa de movimento; tudo o que é movimento impede o tempo de virar fantasma.
O tempo seguiu seu curso. O vento uivou nos cantos. A casa encolheu-se em si mesma, esperando o toque de uma mão antiga, o peso de um corpo no sofá, o tilintar de talheres que marca a rotina dos vivos. Ninguém conversava. Ninguém comia. Ninguém chegava. A casa chorava nos estalos da noite.
Até que, um dia, chegaram os parentes. Entraram com passos ligeiros, trazendo histórias novas e lembranças velhas. O ar se iluminou de vozes, o chão rangeu em contentamento, a mesa retomou seu ofício. O relógio, que parecia desajustado, voltou a marcar o tempo certo: o tempo dos vivos.
E a casa, antes ruína de silêncio, renasceu. Parou de fazer barulho sozinha. Voltou a respirar. Porque uma casa sem gente é só tijolo e saudade; mas uma casa habitada é o próprio coração do tempo batendo novamente.
Agora, ela pertence outra vez aos vivos, às pessoas que entram e saem, às conversas boas e às nem tão boas, ao cotidiano que se espalha sem pedir licença. Onde antes só havia memória, hoje há vida em pleno acontecimento. E, sob o olhar suave dos que já passaram por ali, os novos moradores ocupam seus lugares, assumem seus papéis e seguem vivendo como é preciso viver: com movimento.
Assim, as boas lembranças permanecem, as histórias engraçadas ganham nova voz, e aquela casa outrora vazia volta a se encher, agora com passos inquietos, urgências do mundo material e a bênção silenciosa de quem já se foi, mas ainda acompanha.
