O Brasil está no atual momento sem um favorito definido para a disputa presidencial. Lula e Flávio Bolsonaro lideram as pesquisas, mas sem uma margem que permita antecipar o desfecho.
O governo Lula chegou a 2026 com uma agenda que ressoava no cotidiano da população. A reforma tributária prometia simplificar um sistema que consome horas de trabalho de empresários e contadores. A proposta de tributar bancos, apostas e bilionários tocava num sentimento de injustiça presente na mesa de muitas famílias. O debate sobre a jornada de trabalho de seis por um entrou nas conversas de trabalhadores que há anos não veem um fim de semana inteiro com a família. Eram pautas com potencial de aproximar o governo das pessoas, mas dois escândalos deslocaram do centro do debate.
O primeiro foi o caso do Banco Master causando desgaste para o governo.
O segundo episódio foi a revelação de descontos indevidos em benefícios de aposentados pelo INSS, com indícios de envolvimento de servidores e intermediários, afetando diretamente os trabalhadores da base da pirâmide social.
Em conjunto, os dois episódios sobrepuseram-se à agenda de governo.
O presidente Lula acorda todos os dias com a tarefa de reconectar seu governo ao cotidiano de quem o elegeu e os escândalos tornaram essa tarefa mais difícil.
Flávio Bolsonaro cresceu nas pesquisas não por ter apresentado um projeto de país, mas por ocupar o espaço da insatisfação. A tentativa de se apresentar como moderado, no entanto, esbarra em seu histórico político. O eleitor que migrou sua intenção para ele por rejeição ao PT pode não permanecer quando suas propostas forem submetidas a um exame mais detido.
O otimismo da direita no Brasil advém das sucessivas vitórias presidenciais recentes na Argentina e no Chile.
A reforma do Supremo Tribunal Federal tende a tornar-se um dos eixos centrais da disputa eleitoral. A extrema direita propõe o impeachment de ministros como instrumento de revanche política e setores do centro e da esquerda reconhecem a necessidade de mudanças sem as quais o desgaste da corte continuará avançando, com a necessidade de mais transparência como a criação de um código de ética com regras sobre relações com o setor privado, o estabelecimento de mandatos com prazo definido, a fixação de limite de idade para aposentadoria e a ampliação da transparência sobre as deliberações internas.
O mesmo raciocínio se aplica ao Legislativo, que opera com um volume de emendas parlamentares sem transparência.
No cotidiano do eleitor brasileiro, os problemas são corriqueiros, como a escola pública sem professor, o posto de saúde sem remédio, a rua sem iluminação, a aposentadoria que não cobre as despesas do mês, a empresa que fecha porque não aguenta a carga tributária, a renda ínfima para cobrir despesas do dia-a-dia. Os candidatos terão de apresentar propostas que respondam a esse cotidiano, não apenas em palanque, mas em forma de compromissos verificáveis.
