A liquidação do Banco Master pelo Banco Central não é apenas mais um escândalo financeiro. É a confirmação da tolerância crônica com o crime de colarinho branco, pois no Brasil fraudes bilionárias não são tratadas como crimes graves e os prejuízos são socializados, lucros são privatizados e a punição, quando ocorre, é meramente decorativa.
Fraude financeira não é falha técnica nem erro de governança. É crime praticado com método, planejamento e plena consciência dos danos que provoca. Ainda assim, segue sendo enquadrada em eufemismos convenientes, como “inconsistências contábeis” ou “problemas de compliance”.
O caso do Banco Master segue esse roteiro com precisão. Ativos sem valor econômico real teriam sido artificialmente inflados para sustentar operações financeiras fictícias, criando uma aparência de solvência que nunca existiu. Há intenção, dolo e engenharia fraudulenta.
Nada disso é novidade. O escândalo das Americanas, revelado em 2023, mostrou que manipulações contábeis bilionárias podem permanecer ocultas por anos, mesmo em empresas listadas, auditadas e supostamente submetidas aos mais rigorosos padrões de governança. O resultado foi devastador: investidores enganados, fornecedores quebrados, trabalhadores prejudicados.
A mensagem transmitida ao país é de que o crime financeiro compensa.
Dessa forma, a impunidade torna-se parte do sistema, onde crimes que destroem bilhões em poupança popular são resolvidos com acordos, multas negociáveis e longos recursos judiciais. As penas são baixas, a prisão é rara e a responsabilização pessoal dos principais articuladores é exceção.
Na verdade, quem organiza esquemas financeiros que levam famílias à ruína pratica violência econômica. Destrói projetos de vida, compromete aposentadorias, gera adoecimento psicológico, endividamento crônico e exclusão social. O fato de essa violência não deixar marcas físicas não a torna menos grave. Apenas a torna mais conveniente para quem lucra com ela.
Endurecer a legislação penal contra crimes financeiros é garantir mercado saudável, sem convivência com trapaceiros recorrentes. Confiança não nasce de discursos institucionais, mas da certeza de que o crime será punido.
Causa indignação constatar que, enquanto milhares de pessoas perderam tudo ao confiar em empresas e instituições formalmente reguladas, empresários de má-fé seguem suas vidas sem qualquer constrangimento social ou penal. Ex-empresários, que deveriam estar presos, continuam frequentando os mesmos círculos, operando no mercado e, muitas vezes, reaparecendo em novos empreendimentos, como se fraudar fosse apenas uma estratégia de negócios malsucedida.
Não pode ser normal subverter a ordem econômica, captar recursos da população com base em mentiras e sair ileso. Quem frauda o sistema financeiro coloca em risco não apenas investidores individuais, mas todo o mecanismo de intermediação que sustenta a economia. A tolerância com esses crimes destrói a credibilidade do mercado, corrói as instituições e aprofunda a sensação de injustiça social.
