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Foto: Elina Emurlaeva (https://unsplash.com/pt-br/fotografias/nos-uma-bandeira-no-mastro-tzhcosYGg8k)

Venezuela e a lógica das potências

A história recente da Venezuela reflete as grandes disputas geopolíticas do mundo contemporâneo.

Comparar as administrações de Hugo Chávez e Nicolás Maduro ajuda a compreender como Estados Unidos, China e Rússia tendem a agir de forma semelhante quando seus interesses estratégicos são tensionados em seus entornos imediatos.

Hugo Chávez chegou ao poder em 1999 com respaldo popular, sustentado pela promessa de refundação do Estado e de redistribuição da renda. Seu governo combinou carisma pessoal, retórica anti-imperialista e políticas sociais abrangentes, financiadas pelo boom do petróleo. Chávez detinha legitimidade eleitoral, forte capacidade de mobilização e centralizava decisões, mas ainda preservava certo equilíbrio institucional e canais de mediação política.

Nicolás Maduro herdou o poder sem o carisma do antecessor e sob condições econômicas muito mais adversas. O colapso dos preços do petróleo desencadeou hiperinflação, escassez de bens e um êxodo populacional sem precedentes. Diante da crise, a resposta foi o fechamento progressivo do regime, com enfraquecimento do Legislativo, repressão à oposição e crescente dependência de aliados externos hostis aos Estados Unidos, como Rússia, China e Irã.

É nesse contexto que se intensifica a pressão norte-americana. As sanções e sua eventual flexibilização vêm acompanhadas de exigências de alinhamento estratégico, sobretudo no setor petrolífero e na contenção de adversários geopolíticos. Trata-se menos de uma cruzada em defesa da democracia e mais de uma reafirmação de influência em uma área tradicional de interesse de Washington.

Esse padrão de comportamento, contudo, não é exclusividade dos Estados Unidos. Washington age no Caribe e na América Latina de modo semelhante ao que Pequim faz no Sudeste Asiático e ao que Moscou reivindica em seu chamado “exterior próximo”. A China pressiona Taiwan, disputa o Mar do Sul da China e busca assegurar rotas comerciais e energéticas vitais. A Rússia, por sua vez, considera inaceitável a presença de forças hostis em países que fizeram parte da antiga União Soviética, como demonstrado no conflito da Ucrânia. Em todos os casos, prevalece a mesma lógica: grandes potências raramente toleram instabilidade ou alinhamentos adversos em suas fronteiras estratégicas.

A riqueza energética da Venezuela, sua posição geográfica e fragilidade institucional transformaram o país em objeto de disputa, enquanto o próprio regime perdeu capacidade de conduzir uma transição interna legítima. A recente captura de Maduro pelos Estados Unidos, independentemente do juízo moral sobre seu governo, reacende um dilema clássico da política internacional: até que ponto a soberania de um país pode ser relativizada em nome de interesses geopolíticos ou da defesa da democracia?

Entre Chávez e Maduro, a Venezuela passou de um projeto populista com legitimidade social para um regime autoritário em colapso econômico e, neste contexto, os Estados Unidos, de forma semelhante à China e Rússia, consolidou sua lógica de controle de sua suposta zona de influência.

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