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São Paulo - Antigos militantes dos movimentos sociais se reuniram ao redor do monumento que marca o local aonde foi morto Carlos Marighella, um dos líderes da resistência contra da ditadura(Rovena Rosa/Agência Brasil)

Nem de direita, nem de esquerda

Foto: Rovena Rosa/ Agência Brasil

 

 

 

A democracia atual ocorre tanto nas formas de governo República ou Monarquia e é caracterizada pela participação popular nas decisões, seja de forma direta ou indireta, através de representantes eleitos. Todos os cidadãos, por consenso, podem colaborar na construção das leis para reger a sociedade, têm liberdade de expressão, coexistem pessoas de ideias políticas diferentes, convivem os ocupantes de cargos no atual governo e a oposição, e temos periodicamente eleições para garantir a alternância de ideias no governo.

O desrespeito ao modo de pensar diverso e a crença de uma superioridade de ideias para resolver todos os problemas da sociedade tem se mostrado um grande erro. A implementação de formas de governo autoritárias, seja de direita ou de esquerda, não se justifica por implicar na eliminação ou tortura de pessoas somente por pensarem diferente.

O governo de Hitler, na Alemanha, teve uma certa aceitação mundial inicial por ter ideias contrárias ao socialismo e comunismo. O mundo percebeu tarde Hitler ter como seus inimigos, não só os socialistas e os comunistas, mas também os judeus e todos os países vencedores da 1ª. Guerra Mundial. Neste instante, a máquina de guerra nazista já gozava do maior poder de destruição da época. Ao final da 2ª. Guerra Mundial morreram cerca de 50 milhões de pessoas e 6 milhões pelo simples fato de serem judeus.

Já o governo soviético, a partir de 1920 Stalin pregou a não exportação da revolução, fortalecimento interno do governo, coletivização da propriedade rural. Para fazer as mudanças eliminou toda a oposição. Por se ter o cerceamento da divulgação de informações e o controle da imprensa, não se tem um valor exato do número de mortos e estima-se em 20 milhões de pessoas mortas. A perseguição aos inimigos ia além de suas fronteiras e o caso mais conhecido é o de Leon Trótski, o qual, mesmo refugiado no México, foi assassinado por um agente da polícia soviética, ao fingir ser seu amigo, o matou de forma traiçoeira, quando Trótski de costas foi alvejado na cabeça por um objeto pontiagudo.

No Chile, em 11.09.1973, foi instaurado golpe militar contra o governo constitucionalmente eleito em 1970, de Salvador Allende. Allende procedeu a nacionalização de grandes empresas multinacionais, com prejuízo para as empresas americanas. Os Estados Unidos determinou o bloqueio econômico e também deu apoio para a realização do golpe. O golpe foi liderado por Augusto Pinochet, até então tido como amigo do presidente e o seu chefe das Forças Armadas. Pinochet presidiu a ditadura de direita no Chile, no período de 1973 a 1990, com o saldo negativo de 3000 mortos ou desaparecidos, além de milhares de prisioneiros torturados. Um exemplo da brutalidade do seu regime, se deu no início do golpe, quando Allende com sua guarda e assessores no Palácio La Moneda estavam sendo atacados e resolveram se entregar, na ocasião Pinochet deu a ordem para os prisioneiros serem mandados para fora do país, lugar de livre escolha, e, no meio do caminho deveriam ser jogados para fora do avião, conforme relata Heraldo Muňoz, em seu livro (A sombra do ditador: memórias políticas do Chile sob Pinochet, tradução Renato Aguiar, Rio de Janeiro: Zahar, 2010, p. 29-30). No livro há diversos outros relatos dos horrores perpetrados contra pessoas e coisas ligados a Salvador Allende. Na p. 64 consta “Em toda a cidade, os militares vasculhavam casas e apartamentos e confiscaram milhares de livros, jornais e discos suspeitos de serem “subversivos”. Já na p. 65 é relatado por Osvaldo Romo, torturador, detalhes das prisões, nestes termos: “Havia, por exemplo, “o submarino”, em que o prisioneiro era afundado num tanque de água cheio de excrementos e amônia até começar a afogar-se; a parrilla (grelha elétrica), na qual uma vítima nua e ensopada era amarrada à estrutura metálica de um colchão de molas enquanto lhe davam choques na boca, nos ouvidos e nos órgãos sexuais; “o poleiro”, em que o torturado era pendurado numa trave de madeira pelas extremidades até o ossos se fraturarem e o prisioneiro ou prisioneira desmaiar de dor. Dedos e unhas foram extraídos com alicates; ratos foram introduzidos nas vaginas de mulheres. Mulheres foram brutalmente estupradas (mais de uma dúzia de prisioneiras foram engravidadas por seus captores); mulheres grávidas eram torturadas e mortas; outros prisioneiros eram obrigados a jogar roleta russa, sofrer privação de sono e de comida, passar por execuções simuladas e muito mais”. Foram criados diversos campos de concentração no Chile, conforme consta também na p. 65. A perseguição a pessoas atingia também a sua vida laboral e política, nos termos do relato da p. 71: “Pessoas de esquerda e outros oponentes do golpe militar foram demitidos das empresas privadas e estatais, cerca de 50 mil somente nos serviços da administração pública. Milhares de professores e estudantes foram expulsos das universidades, e departamentos de ciências sociais inteiros foram desmantelados… Os partidos políticos de esquerda foram totalmente banidos, e todos os demais partidos foram postos “em recesso”. O Congresso Nacional foi fechado, as eleições suspensas indefinidamente e os registros eleitorais destruídos”.

Existem outros exemplos, inclusive atuais, como da China e de Cuba, que mantêm presos políticos. Também a maior democracia do mundo, Estados Unidos, respeita todos os direitos dos seus cidadãos, mas quando estrangeiros lhe ofendem a sua segurança, em qualquer nível, são brutalmente agredidos, inclusive com tortura.

Não se enganem. A mesma força ditatorial de direita a lhe proteger pode ser a mesma de esquerda a lhe perseguir, ou vice-versa, dependendo das forças reinantes no governo. As pessoas que viveram sob um regime ditatorial valorizam os ganhos proporcionados por uma democracia. Logo, quem não sofreu ou viveu uma ditadura deve procurar se informar do que venha a ser este regime.

O Brasil viveu os sofrimentos da ditadura militar, no período de 1964 a 1985. Há quem tente negar o ocorrido, contudo, foram graves os acontecimentos, com a justificativa de livrar o Brasil do comunismo. Foram tempos de censura à imprensa, de restrição aos direitos políticos, de perseguição policial, de tortura dos opositores e, oficialmente, quase 400 mortos e desaparecidos.

Também, em parte, a insensibilidade de alguns brasileiros é pelo fato dos terrores da ditadura ter atingido um pequeno número de pessoas, relativamente à sua população, e, por isto, muitas famílias não sentiram os reflexos, mas na verdade vidas foram perdidas pelo simples fato de serem oposição. Já, as ditaduras do Chile e da Argentina tiveram número de mortos e desaparecidos muito maior e, com isto, grande parte de suas famílias têm parentes ou conhecidos que sofreram com os excessos.

Agora, as práticas desumanas das ditaduras atingem toda a sociedade e esta deve se preocupar em manter suas liberdades individuais intactas. Proteger os direitos de outrem é preservar também os seus, uma injustiça aceita hoje poderá gerar a sua recorrência.

É visível em uma ditadura existir uma “aparente” normalidade na sociedade, devido as pessoas não poderem protestar, não fazerem greves, não criticarem o governo, etc., mas isto não significa que as pessoas não tenham problemas no atendimento de necessidades básicas (educação, saúde, segurança, infraestrutura, salários e condições de trabalho dignas, etc.) ou que inexistam desigualdades, injustiças e instabilidades. Elas só não reivindicam por esta pratica ser vedada, sob pena de sofrerem fortes represálias fortes.

Assim, o lado positivo de uma democracia é as pessoas poderem reivindicar os seus direitos, reclamar de infortúnios e gozarem de suas liberdades individuais e coletivas, respondendo por eventuais excessos que cometerem. Também a democracia procura aprimorar continuamente os mecanismos de coexistência e os meios de reivindicação, porque por mais perfeita que uma sociedade seja ela sempre terá novos desafios a suplantar.

 

 

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